Após o pecado original e o consequente enfraquecimento da natureza humana, a inquietação do espírito pode derivar-se da desordem das paixões, fascinadas por algo que não é lícito. Mas, há outro fator: “o demônio, vosso adversário, anda ao redor, como um leão que ruge, buscando a quem devorar” (I Pe 5, 8). Inúmeras vezes, é ele quem provoca na alma estados de perturbação, aguçando ainda mais as más tendências. Como Lúcifer e seus sequazes não cumpriram a finalidade para a qual foram criados, por se terem revoltado contra Deus, buscam a todo custo a mesma desgraça para os homens com o intuito de privá-los das alegrias da eterna contemplação.

São Francisco de Sales qualifica o frenesi como o maior mal que pode sobrevir à alma, depois do pecado:

Porque assim como as perturbações e sedições interiores de uma república a arruínam por completo e a embaraçam a ponto de que não possa resistir ao estrangeiro, assim o nosso coração, estando perturbado e inquieto em si mesmo perde a força de conservar as virtudes que tinha adquirido e ao mesmo tempo o meio de resistir às tentações do inimigo. [1]Com efeito, o demônio procura exacerbar essa debilidade, utilizando-se da agitação constante, especialmente propagada com a Revolução Industrial.

Revolução Industrial: a embriaguez da agitação

É inegável que o desenvolvimento da tecnologia e da ciência geram inúmeros benefícios e facilidades para a sociedade contemporânea. Com efeito, seria um absurdo se, ainda nos dias atuais, as cirurgias fossem realizadas sem o uso de anestésicos, se para o envio de uma carta fossem utilizados os famosos “pombos-correio” ou, para deslocar-se de um país para outro, não houvesse outro meio senão empreender uma longa viagem marítima ou a cavalo.

Entretanto, muitas vezes, pelo mau uso de tais tecnologias e máquinas, surgem problemas bastante complexos, cuja existência talvez nem seria cogitada em épocas anteriores. Um efeito devastador desse mau uso foi o fato de esse espírito prático, fortemente tendente à velocidade, à agitação e, consequentemente, ao esquecimento do sobrenatural, ter penetrado na alma humana e afetado todo o seu modo de ser.

A máquina — a “alma” de quase toda técnica — tende a sujeitar inteiramente a seu ritmo mecânico todo o trabalho humano. E mais do que o trabalho as diversões, a vida de família, toda a existência. Em todos os domínios, o homem vai se utilizando cada vez mais largamente da máquina, e aceitando adaptar-se a ela, para fruir as vantagens que ela proporciona. Nestas condições, a influência da máquina tende a penetrar nas esferas mais delicadas e mais altas da vida humana, isto é, tende a criar um estilo de vida, um modo de conceber os problemas e de os resolver, uma mentalidade enfim, inteiramente mecanizada. Homens estandardizados, com ideias e gostos padronizados, imersos num estado de espírito de um tédio sombrio, displicente, pesado, cheio de fadiga, interrompido apenas pelas excitações delirantes do cinema, da televisão, do rádio, ou das “torcidas” esportivas.[2]

Até o século XIX, podia-se afirmar que a maior parte das pessoas ainda levava uma vida muito estável, penetrada, em muitos aspectos, pelos costumes tradicionais e carregados de simbolismo das civilizações anteriores. Contudo, o surgimento das indústrias e a realização de tantos avanços científicos e tecnológicos contribuiu decisivamente para que se operasse uma mudança radical nas mentalidades e no modo de viver de toda sociedade. O “progresso” e o “desenvolvimento”, tão difundidos desde o final do século XVIII, prometiam uma era de paz e segurança, na qual o homem seria o rei absoluto de si mesmo e de suas ações.

Essa brusca transformação da cultura e dos ambientes causada pela Revolução Industrial exerceu uma profunda ação sobre as tendências humanas, pois “os ambientes [o mesmo pode ser aplicado à cultura], na medida em que favorecem os costumes bons e maus, podem opor à Revolução as admiráveis barreiras de reação; ou […] podem comunicar às almas as toxinas e as energias tremendas do espírito revolucionário”, [3] que incentivam a revolta das paixões.

Com as tendências amortecidas, torna-se mais fácil ao homem a aderência aos fatos que se concretizam depois. Por isso, ao longo do processo de industrialização, rapidamente se consolidou e difundiu o mito de que o homem, por si só, era capaz de produzir coisas extraordinárias e numerosas, independentes de Deus. O otimismo contaminou de tal maneira os espíritos que despertou neles uma crescente apetência de fruição e um verdadeiro horror ao recolhimento e ao sacrifício.

Pode-se acrescentar ainda a ação do demônio que, aproveitando-se deste estado de espírito reinante, começou a propagar a ideia de que a máquina e a velocidade podem proporcionar ao ser humano a plenitude do gozo, dando a entender que “a excitação era a única forma de gozar a vida”.[4]

O desejo da novidade passou a ser, então, o dogma da sociedade contemporânea, levando o homem a se cansar rapidamente das coisas, querendo continuamente substituí-las por outras, o que o tornou incapaz da estabilidade e, portanto, do estado espírito exigido pela contemplação. Esta, junto com muitas outras práticas da Religião, foi sendo cada vez mais relegada a um segundo plano, até se dissociar completamente da vida cotidiana:

No fundo, tratava-se de um laicismo que não consistia apenas em silenciar os temas referentes a Deus e ao mundo sobrenatural, mas em apresentar uma visão das atividades do homem diante da qual a Religião era considerada uma coisa com la quale o senza la quale il mondo va tale e quale[com a qual ou sem a qual o mundo continua tal e qual].[5]

Nossa Senhora da Paz

Quebrava-se assim, de forma mais ou menos explícita, a necessidade da relação que deve existir entre as criaturas contingentes e o Criador, resultando no mundo pragmático e materialista de nossos dias.

De fato, aquilo que satanás promete, é exatamente o que vai tirar: as promessas de paz e segurança. Basta frequentar qualquer um dos grandes centros urbanos do mundo contemporâneo: em vez de paz, encontra-se agitação; em vez de realização, frustração e infelicidade quase irreversíveis. A alma que voluntariamente se entrega a este estado de espírito se expõe a receber constantes influências malignas.

[…] há um barulho, um ruído ensurdecedor no mundo que seduz as pessoas e estas, em tais condições, não escutam a suave voz do Divino Mestre. Esse barulho, embora possa ser tomado no sentido material da palavra, antes de tudo significa o tumulto das paixões humanas desordenadas que nos levam a agir e a nos movimentarmos de maneira igualmente desordenada. Donde uma espécie de perturbação difusa nas grandes cidades, uma agitação da vida moderna e seus acontecimentos, que embriagam e fascinam imensa parcela dos habitantes dos maiores centros urbanos. Ora, enquanto houver numa alma esse deleite com o tumultuar do século, algo da delicada voz de Nosso Senhor Jesus Cristo não chegará até ela. Nesta sua lamentável surdez irão esbarrar e se deter as inspirações da graça.[6]

Como diz a Sagrada Escritura: “Non in commotione Dominus” (Vulgata: III Rs 19, 11) — “O Senhor não está na agitação”— e nem pode ser causa dela.

________________________________________
[1] SÃO FRANCISCO DE SALES. Introdução à vida devota. 5.ed. Porto: Porto Médico, 1948, p.270.
[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Vida mecânica, vida natural. In: Catolicismo. São Paulo, n. 55, jul. 1955, [s. p.].
[3] Id. Revolução e Contra-Revolução. 5. ed. São Paulo: Retornarei, 2002, p.85.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Notas Autobiográficas. São Paulo: Retornarei, 2010, v.II, p.103.
[5] Ibid. p.107.
[6] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O partido de Jesus e o do mundo. In: Dr. Plinio. São Paulo: ano XI, n. 118. jan. 2008, p. 12.


Fonte: Arautos do Evangelho