CONVERSÃO DE SÃO PAULO

Quando Saul estava no termo de sua viagem e próximo a chegar em Damasco[1], viu, de repente, na hora do meio-dia, uma luz se aproximar do céu mais brilhante que o sol, que passou a circunscrevê-lo a ele e seus companheiros. Todos viram esta luz e caíram por terra, tomados de pavor.

Quis Deus primeiramente derrubar o orgulho e a obstinação vaidosa da qual Saulo estava repleto, a fim de que ele pudesse receber com submissão e humildade as ordens que iria lhe dar. Derrubou-o para salvá-lo, diz Santo Agostinho[2].

São Crisóstomo diz que Deus quis que a luz precedesse a voz, a fim de que Saulo tomado divinamente por esta luz tão brilhante, acalmasse um pouco seu furor e estivesse em condições de ouvir com mais docilidade. E, Santo Ambrósio[3] comparando São Paulo, em seu desvario de espírito a um lobo que corre em meio às trevas da noite, diz que ficou como que cego pela luz que viu de repente brilhar ante seus olhos.

É de se notar que Jesus não lhe disse:  − Creia em mim, ou algo do gênero; mas contentou-se em reprovar-lhe a perseguição a que O estava submetendo e pergunta-lhe, de algum modo, diz São Crisóstomo[4], o que podia movê-lo a perseguir Sua pessoa em seus membros, querendo obrigá-lo, por aí, a refletir sobre a injustiça e a violência de seu procedimento[5].

Eis, pois, este lobo devorador transformado de repente num cordeiro. Não tendo ainda conhecimento de quem lhe falava, mas sentindo-se, mesmo assim prostrado abaixo do poder de Deus, ele o chama de Senhor, e pergunta-lhe quem é ele. Aterrado por ouvir dizer que persegue aquele cuja luz brilha ante seus olhos, e cuja voz ressoa a seus ouvidos, enquanto ele julgava estar rendendo um grandíssimo serviço a Deus perseguindo os discípulos de Jesus. Seu pavor chegou ao extremo quando esta voz disse-lhe: Eu sou Jesus de Nazaré, que persegues. Segundo Santo Hilário[6] e Santo Agostinho[7] neste momento ele via Jesus Cristo, que lhe apareceu em pessoa. Tal sentimento, defendido por Calmet[8] é confirmado pela Escritura.

Costuma-se mostrar aos viajantes à Terra Santa, o local onde São Paulo foi derrubado, a três léguas de Damasco, rumo sul. E, no tempo de Santo Agostinho[9], havia no lugar onde ele se tinha convertido, uma igreja.

Segundo a reflexão de São João Crisóstomo, Cristo não disse a Saulo que Ele era Jesus ressuscitado dentre os mortos; nem que era Jesus sentado à direita de Deus Pai. Não lhe disse também, segundo a observação de São Gregório, que fosse o Verbo Eterno, nascido de Deus ante todos os séculos e princípio de todas as coisas. Mas, declara que é este Jesus menosprezado pelos judeus, este Jesus de Nazaré, que eles tinham feito morrer numa Cruz.

Isto, porque Ele queria que, ante a visão de seu próprio desvio, ele se humilhasse subitamente e que tivesse compunção pelo sentimento da ingratidão, pelo qual ele mesmo e todos os judeus eram culpados, por não terem reconhecido a visita do Senhor, nem compreendido o cumprimento das profecias na pessoa deste Homem-Deus.

Te é duro recalcitrar contra o aguilhão. O sentido destas palavras é tomado das juntas de bois atreladas ao carro e que se espetam com o aguilhão. Quanto mais recalcitram, mais são feridas, pois o aguilhão entra-lhes na carne. Quanto mais Saulo se opunha aos desígnios de Deus, querendo destruir sua Igreja, mais ele recalcitrava contra a mão do Todo Poderoso, e mais se cansava inutilmente; o plano de Deus não deixava de se executar.

Finalmente, submeteu-se à graça e à vontade de Deus: Que queres que eu faça?

E o que ele disse uma vez, naquela ocasião, disse-o do fundo do coração a vida toda, pois que a seguir só olhou para a vontade de Cristo para regularizar suas ações.

São Lucas observa que somente então Jesus diz-lhe para entrar na cidade de Damasco, perto da qual estava, e que lá lhe seria dito o que fazer[10].

O Senhor dá a conhecer então a Saulo convertido, a escolha de graças que tinha feito na sua pessoa, para estabelecê-lo no Apostolado dos Gentios, e dizendo-lhe que era por esta razão que lhe tinha aparecido, prometendo aparecer-lhe novamente, a fim de que pudesse, como os demais apóstolos, servir-lhe de testemunho das coisas que tinha visto e que deveria ver a seguir nestas grandes revelações que tinha tido, quando fora elevado até o terceiro céu. Pois era preciso que todos os Apóstolos dessem depoimento de Jesus Cristo, como testemunhas oculares. É também porque São Paulo teve que ser favorecido por estas aparições e revelações extraordinárias, nas quais todos os segredos da Encarnação do Filho de Deus e de sua Ressurreição foram-lhe expostos à luz dos olhos.

Esta cegueira corporal de Saulo era somente uma imagem daquela onde seu espírito e seu coração tinham estado até então, da mesma maneira que a cura milagrosa de sua vista logo depois, foi uma figura da cura bem mais admirável da cegueira tão criminosa de sua alma.

“Eia, pois, exclama São Crisóstomo[11], fazendo alusão aos oráculos contidos nos sétimo e oitavo capítulos do profeta Isaias, aqui está então este ilustre despojo do demônio arrancado do inimigo de Jesus Cristo; eis uma de suas mais poderosas armas, na qual punha sua confiança, que lhe foi arrancada por Aquele que é mais forte que Satanás, depois de tê-lo subjugado. E, o que é mais admirável, é que aqueles mesmos que são inimigos de Jesus Cristo, serviram-lhe nesta ocasião de ministros, para conduzir como num triunfo, à vista de todo mundo, este perseguidor da Igreja, derrotado sob o divino poder d’Aquele que ele perseguia outrora, de maneira tão ultrajante.

Quem poderia excogitar no que pensou e o que fez durante estes três dias!? Estava a repassar em espírito, diz São Crisóstomo, tudo que tinha se passado desde a morte de Jesus Cristo e a de Santo Estevão, também. Afligia-se, recriminava-se ele mesmo por tudo que tinha cometido. Confessava, na presença de Deus, sua própria miséria e sua própria cegueira, e admirava a divina misericórdia. Rezava, e conjurava o Senhor de perdoar-lhe, e de torná-lo digno de reparar todos os males que tinha causado à sua Igreja, fazendo-o cumprir a obra para a qual o destinava[12].

− O nome de Saulo fez estremecer Ananias, porque era conhecido tudo que ele tinha feito em Jerusalém e porque ele vinha para Damasco. Assim, o temor que o impediu de pensar no que dizia e a Quem falava, o Senhor, fizeram-no opor dificuldades em ir procurar Saulo. Ananias, entretanto, sobrepondo-se a seu estupor, para obedecer a Deus, foi procurar Saulo e o batizou.

Assim, recebeu a qualidade de discípulo de Jesus; seus estragos foram esquecidos, não lhe foi feita nenhuma crítica; sua infidelidade já estava submersa no sangue recentemente derramado por Nosso Senhor Jesus Cristo; os sinais de endurecimento que lhe tinham feito outrora rejeitar a luz da verdade, e o véu que impedia o judeu infiel de ver e de reconhecer seu Messias, caíram-lhe juntamente com as escamas dos olhos. Ele passou a ver com alegria e respeito como um ministro de Deus Aquele que ele tinha vindo buscar acorrentado como um criminoso e como um prevaricador da Lei de Deus.

Ainda hoje em dia se mostra, em Damasco, a fonte na qual foi batizado São Paulo.

Na sua primeira epístola ao grande Timóteo, bispo de Éfeso, (1, 12-16) Saulo externa quais eram então seus sentimentos.

Assim é que se deu a célebre conversão do Apóstolo dos Gentios, do Pai espiritual de quase toda a terra. A Igreja, pela qual ele trabalhou tanto e até talvez mesmo mais do que os outros Apóstolos, quis honrar o fato por uma festa solene. Desde há vários séculos ela é celebrada a 25 de janeiro, por ocasião da transladação de suas relíquias.

Na época de sua conversão São Paulo tinha por volta de 36 anos. Segundo Santo Agostinho, abandonou seus bens e, quando pregava o Evangelho ele não possuía nada, razão pela qual São Crisóstomo o chama de homem pobre. Não se sabe se ele era viúvo ou se fora engajado no vínculo do casamento. Mas, o que é certo é que, desde então fez profissão de continência e castidade perfeita, conforme narra Santo Agostinho.

Tirado de: Histoire complète de Saint Paul Apôtre et Docteur des nations par l´Abbé Maistre, Paris: Watelier, 1870, pp. 10-19.

[1] Act 9,3; 22,6
[2] Agos Serm 175, c.6
[3] De Benedict.Patriarch.c.ult.
[4] Act.hom.16,p.181; S.Aug. in Sl 30
[5] At 9,5-6
[6] De Trinit. 1,3
[7] Serm. 276, « et alii plures » ; Calmet, Comm.
[8] A. Calmet 1672 – 1757, abade de Senones, destacado exegeta francês, escreveu uma “História do Antigo e Novo Testamento”.
[9] Serm.278, c.1
[10] At 26, 16-19
[11] Act. hom. XIX, PP 81-82
[12] At. 26, 18


Fonte: Arautos do  Evangelho

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