TRÊS ANJOS INVESTEM CONTRA HELIODORO

Após a morte de Alexandre Magno, “os males se multiplicaram na Terra” (I Mc 1, 9). A Palestina foi cobiçada pelos ptolomeus do Egito e pelos selêucidas da Síria, tendo sido frequentemente devastada por suas tropas. Os primeiros a dominaram durante cem anos aproximadamente, e em 203 a. C. ela foi tomada pelo rei sírio Antíoco III, o Grande, ao qual sucedeu seu filho Seleuco IV Filipator.

Chicoteado até ficar semimorto

Um certo Simão, superintendente do Templo de Jerusalém, entrou em desacordo com o Sumo Sacerdote Onias, varão de insigne piedade e que se destacava por “sua intransigência contra o mal” (II Mc 3, 1).

Movido pela inveja, Simão chegou à hedionda traição. Mandou avisar Seleuco IV que o Templo estava repleto de riquezas, as quais poderiam ser levadas para Antioquia, capital de seu reino.

Seleuco, então, enviou Heliodoro, superintendente de seus negócios, para se apoderar desses tesouros. Chegando a Jerusalém, dirigiu-se ao Templo, mas ao entrar apareceu “um cavalo, ricamente encilhado, montado por um terrível cavaleiro. O cavalo avançou impetuosamente contra Heliodoro, lançando-lhe as patas dianteiras. O cavaleiro parecia ter armas de ouro.

“Apareceram também outros dois jovens de força extraordinária, belíssimos na aparência e com vestes magníficas. Eles cercaram Heliodoro e puseram-se a chicoteá-lo sem parar, de ambos os lados, causando-lhe muitos ferimentos. Ele caiu de repente por terra. Envolto em densa escuridão, tiveram de levantá-lo e carregá-lo numa padiola” (II Mc 3, 25-27). Heliodoro estava semimorto.

Alguns de seus amigos pediram a Onias “que invocasse o Altíssimo, para que concedesse a graça da vida a quem se encontrava reduzido, sem dúvida, ao último alento” (II Mc 3, 31).

Receando que o rei pensasse ter sido Heliodoro vítima de alguma ação criminosa dos judeus, Onias ofereceu um sacrifício pela recuperação dele.

Enquanto o sacrifício era realizado, os mesmos jovens, revestidos com os magníficos trajes, apareceram novamente a Heliodoro e lhe falaram: “Agradece muito ao Sumo Sacerdote Onias, pois é por causa dele que o Senhor te concede a graça da vida. Quanto a ti, açoitado pelo Céu, anuncia a todos o grande poder de Deus! E logo, ditas estas palavras, desapareceram” (II Mc 3, 33-34). Esses personagens eram Anjos que o Altíssimo enviou para defender o Templo e punir o mal.

Milagrosamente curado, Heliodoro ofereceu um sacrifício a Deus, fazendo grandes promessas ao Criador; logo depois voltou, com seu exército, para AntioquAia, e “a todos dava testemunho das obras do sumo Deus, obras que ele vira com seus próprios olhos” (II Mc 3, 36).

E o rei teve a insensatez de perguntar-lhe se poderia ir novamente a Jerusalém para trazer o tesouro do Templo. “Heliodoro respondeu:

‘Se tens um inimigo, ou conspirador contra a ordem pública, envia-o para lá: tu o receberás de volta moído de pancadas, se porventura conseguir escapar! De fato, há naquele lugar verdadeiramente uma força de Deus” (II Mc 3, 37-38).

O abominável Jasão compra o título de sumo sacerdote

Tendo sido Seleuco IV assassinado por um de seus cortesãos, apoderou-se do reino da Síria seu irmão Antíoco Epífanes, em 175 a. C. Era um homem tão iníquo que a Sagrada Escritura o denomina “raiz de pecado” (I Mc 1, 10).

Os propugnadores da fusão do judaísmo com o helenismo queriam de todos os modos impor seus objetivos na Palestina. Esses inovadores, ou melhor, traidores, precisavam do apoio do rei porque, do contrário, o partido dos fiéis à verdadeira religião, “que constituía a grande maioria, poderia esmagar facilmente este movimento de apostasia, lapidando seus líderes, como o prescrevia a Lei (cf. Lv 24, 16)”.

À testa desse movimento estava um irmão do virtuoso sumo sacerdote Onias, “o abominável Jasão” (II Mc 4, 19), o qual começou a fazer manobras espúrias para conseguir o cargo de sumo sacerdote. Ofereceu a Antíoco Epífanes grande soma de dinheiro para que o rei lhe concedesse o sumo sacerdócio.

A pretensão de Jasão era inteiramente contrária à moral, à religião e inclusive ao bom senso; “pois com que direito o rei pagão da Síria poderia instituir um sumo sacerdote judaico, sobretudo quando o titular legítimo ainda vivia? “

Através dessa simonia ele obteve o título, e começou a introduzir entre os judeus “costumes depravados” (II Mc 4, 11).

Construíram um ginásio em Jerusalém

“Construíram em Jerusalém um ginásio ao modo dos pagãos. Disfarçaram a circuncisão e renegaram a aliança sagrada, ajuntando-se às nações e vendendo-se para praticarem o mal” (I Mc 1, 14-15). ” Os ginastas deixavam suas roupas para fazerem seus diversos exercícios.”. Aliás, a palavra ‘ginásio’ deriva do termo grego ‘gymnos’, que significa nu, “porque tais exercícios eram feitos sem roupa alguma”. Tratava-se de uma ação nas tendências, muitíssimo mais importantes do que as ideias, na condução dos homens para o bem ou para o mal.

E com esses “costumes depravados” foram coniventes até muitos sacerdotes que, desprezando o Templo, “corriam a tomar parte na iníqua distribuição de óleo no estádio, após o sinal do gongo” (II Mc 4, 14).

Até mesmo cultuaram ídolos pagãos. Durante umas competições esportivas em Tiro — antiga cidade fenícia situada no atual Líbano –, alguns judeus para lá se dirigiram e ofereceram “trezentas dracmas de prata para o sacrifício em honra de Hércules” (II Mc 4,19). Hércules era considerado um semideus, que se caracterizava por sua força bruta.

“Chegara-se, assim, ao auge do helenismo […] por causa da inaudita contaminação de Jasão, esse ímpio e não sumo sacerdote” (II Mc 4, 13).

Por Paulo Francisco Martos

(in Noções de História Sagrada – nº 111)

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1 – FILLION, Louis-Claude. La Sainte Bible commentée – Le premier Livre des Machabées. 3. ed. Paris: Letouzey et aîné.1923, p. 643.

2 – FILLION, Louis-Claude. La Sainte Bible commentée – Le second Livre des Machabées. 3. ed. Paris: Letouzey et aîné.1923, p. 814.

3 – FILLION, Louis-Claude. La Sainte Bible commentée – Le premier Livre des Machabées. 3. ed. Paris: Letouzey et aîné.1923, p. 643.

4 – SILVEIRA BUENO, Francisco da. Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa. São Paulo: Saraiva. 1965, v. 4, p. 1573.



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